Já parou para pensar no que faz com que você simpatize e se identifique com um personagem? Isso pode variar bastante, já que cada personagem do meio audiovisual é construído de maneira única com o objetivo de cativar o público que acompanha aquele conteúdo.

A personalidade, por exemplo, é um fator muito importante, pois se o protagonista – ou até mesmo os personagens secundários – for gentil, divertido e espirituoso, será quase que imediatamente amado pelo público, mas se for o oposto disso, será desprezado e esquecido. No entanto, a personalidade do protagonista não é o único fator importante, especialmente no atual cenário em que vivemos.

A importância da representatividade

Representar uma comunidade, um povo ou uma etnia é algo essencial atualmente. É importante que haja uma representatividade negra, hispânica, LGBT, entre outras, devido à diversidade existente na nossa comunidade.

Foto por Ron Lach em Pexels.com

A representatividade negra é de suma importância, pois permite que a população negra se veja em outros papéis e posições além do estereótipo criado pela sociedade, abrindo mais oportunidades para que toda a população discuta sobre o lugar dos negros na comunidade.

Para compartilhar sua vivência sobre a importância da representatividade negra no audiovisual, a ilustradora Ana Flávia Cardoso contou sobre como se via representada nos seus desenhos de infância e como tal representação é fundamental para a nova geração.

Papo vai, papo vem

Pedro Ferro – Como você via a representatividade negra na sua infância?

Ana Cardoso – Quando eu era criança, sempre consumia muita coisa de animação, e até outros produtos de entretenimento, eu não tinha personagens com os quais me identificava. Seja nos desenhos, séries de TV, videogame e até nos meus brinquedos, havia um padrão predominantemente masculino e branco, enquanto as personagens femininas se encaixavam no padrão estereotipado, fragilizadas e, mais uma vez, brancas. Então, não cresci com grandes referências de representatividade negra.

Ana Cardoso, ilustradora (Fonte: Portal Belo Horizonte)

Sempre fui uma grande consumidora de cultura pop e, quando eu era menor, gostava muito da arte de fazer cosplay e histórias em quadrinhos, assim como meus amigos. Como a maioria deles eram brancos, conseguiam escolher com facilidade os personagens que iriam se fantasiar, mas já eu pensava: “E eu? Do que eu vou fazer cosplay?”.

O único que consegui fazer na vida foi o da Diana, de Caverna do Dragão, [risos] porque essa era a única personagem que parecia comigo naquela época, sabe? Ela tinha o cabelo parecido como o meu, a pele parecida com a minha e isso era uma coisa que eu não via em outras realidades da animação, personagens com quem eu realmente me identificasse.

Com essa falta de figuras nos desenhos com quem eu me identificasse, acabava criando afinidade com alguns poucos protagonistas masculinos, porque era o que tinha na minha infância. Primeiramente, lá na década de 1980, tínhamos esse problema nos estúdios de animação de não haver pessoas que estivessem dispostas ou aptas a falar sobre a representatividade negra e, segundo, pelo fato de que quem criava esses produtos eram homens brancos que tinham em mente como público alvo os meninos.

Isso tudo foi mudando à medida em que a população negra foi se organizando para combater o racismo e a internet tem sido fundamental para compartilhar e disseminar o discurso antirracista, o que contribuiu para que houvesse uma melhor representatividade negra no meio audiovisual.

Minha mãe, por exemplo, vê nas novelas que os papéis de empregados e serventes eram passados a atores negros. Como isso é novo para ela, ela diz: “Ah, é porque preto tá na moda agora”, mesmo ela sendo preta [risos]. É porque esse protagonismo é algo que ela não via antes e daí eu explico: “Não, mãe. Preto sempre existiu, preto esteve sempre na moda. A questão é que o ‘padrão’ era outro”. De uns anos para cá, vimos atores negros ganhando papéis de maior importância tanto nas novelas quanto em filmes e propagandas.

Pedro – E como você vê hoje a representatividade negra?

Ana – Eu vejo que a mudança está acontecendo, mas por um viés muito mais capitalista, de mercado, sabe? “Se você não emprega, você não tem audiência”, mas não é só isso. As produções audiovisuais, assim como as pessoas – principalmente os jovens – estão mais politizadas do que há 30 anos. Como eu disse antes, se um filme ou série não conversar com um público, as chances de lucrar são menores.

Eu mesma quando assisto a um filme e não houver uma representatividade significativa, eu já nem termino o filme. Claro que não é sempre assim, me esforço em casos de diretores que gosto, por exemplo, mas tenho essa restrição.

Representatividade negra nos cinemas e na TV (Imagem de arquivo)

Eu acredito que só vamos ter uma representatividade negra sincera e real no cinema e em outras produções quando houver mais pessoas pretas produzindo, trabalhando na indústria de entretenimento. Não tem que ter só atores e atrizes negros, mas também roteiristas, diretores, figurinistas e produtores. Já vi ótimos atores em papéis estereotipados pelo fato de terem sido escritos por pessoas não pretas.

O Brasil é um país muito diverso, com muitas etnias e vários olhares e opiniões diferentes. Se quisermos fazer um entretenimento que seja para todos, temos que compartilhar esses olhares, e assim diversificar as equipes de trabalho também. Só assim para evitarmos gafes e problemas de representatividade e discussões.

Pedro – As produções audiovisuais estão inserindo a representatividade e a discutindo de maneira correta?

Ana – Isso é muito complexo. Quando criança, eu gostava de assistir ao desenhos do X-Men e o grupo, tanto no desenho quanto nos quadrinhos, discutia sobre o que é ser diferente e a importância da diversidade, mesmo que houvesse uma defasagem de personagens negros no desenho. Até mesmo os questionamentos que o vilão Magneto trazia eram muito legais. Outra série era Todo Mundo Odeia o Chris, que era uma sátira de um outro seriado de uma família branca, discute questões de racismo com determinado humor.

No entanto, parece que muitos filmes de Hollywood só querem exaltar os pretos em filmes de escravidão, mas não é só isso que a gente tem para mostrar. Quando eu vou fazer projetos, em geral, seja em quadrinhos ou em outras mídias, eu confesso que eu fico um tanto irritada quando me chamam só para fazer coisas ligadas à questões negras. Em 2022, eu entendo a importância de discutir racismo ou representatividade negra, mas deveríamos poder falar sobre o que bem entendermos, porque somos mais que apenas as nossas dores.

Por exemplo, eu assisti à série How To Get Away With Murderer, com a Viola Davis, e lembro de ter pensado como é incrível ver uma advogada negra poderosa com uma trama fantástica. Claro que há episódios onde a questão racial é levantada, mas esse não é o foco do seriado, e isso para mim é maravilhoso! Isso é o que eu gosto de ver na televisão.

Um dos meus últimos projetos foi o quadrinho “Contra Tempo: Uma Viagem de 200 anos”, que conta a história da Independência do Brasil através do olhar de uma historiadora negra que viaja no tempo. E o mais legal é que o tema principal não é racismo.

HQ Contra Tempo: Uma Viagem de 200 anos (Fonte: CICLO22 – USP)

Para mim, o importante na representatividade negra no meio audiovisual é que mostre o negro vivendo e sendo mais do que já foi estabelecido pela sociedade. Como não conseguimos mudar a sociedade brasileira da noite para o dia, não conseguimos mudar rapidamente o fato de que os lixeiros são em maioria pretos e os políticos são majoritariamente brancos, na arte podemos imaginar mundos onde o negro pode ser e estar onde quiser.

E é por esse motivo que amo e estudo a arte, pois a pessoa vai conseguir se identificar e se sentir representada vendo aquele personagem que é exatamente como ela sendo, por exemplo, um grande médico ou empresário.

Pedro – Como o aumento da representatividade negra no meio audiovisual pode ser benéfico para a nova geração?

Ana – Eu não sou uma pessoa que gosta tanto de produções da DC Comics e Marvel, mas o Homem-Aranha é um dos poucos que gosto mesmo, porque ele não é pautado simplesmente em salvar o mundo, ele tem as questões pessoais para resolver. Quando assisti a Homem-Aranha no Aranhaverso – além de ser uma animação excelente em termos de produção – eu confesso que imaginei que o público iria receber muito mal o filme, porque o protagonista seria um garoto negro, ao invés do já tradicional Peter Parker, mas foi um sucesso.

Pôster de Homem-Aranha: Através do Aranhaverso

Eu raramente vou ao cinema para assistir a um filme duas vezes, mas eu fui sozinha na primeira vez e depois decidi que tinha que levar minha sobrinha, porque tinha muitos elementos ali que ela gosta e se identifica. Mesmo não acompanhando esse mundo de heróis, é importante que as crianças se vejam nessas figuras e em cenários diferentes dos quais elas e os parentes vivem para que, assim, almejem ser algo muito maior do que a sociedade dita.

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