A segunda temporada de The Last of Us terminou no último domingo (25) e deixou um gosto amargo na boca do público, sejam esses fãs da série ou dos jogos. A progressão da história e o desenvolvimento de personagens são os principais pontos em que a série falha, sendo visivelmente inferior à primeira temporada e ao material base.

Claro que nem tudo foi um desastre. Em todos os momentos as atuações foram excelentes, trazendo a emoção que a cena exigia, além de uma trilha sonora comovente por Gustavo Santaolalla e David Fleming e uma fotografia impecável. No entanto, tais aspectos não conseguiram salvar a série de uma temporada maçante e inconsistente.

Terror em storytelling

A segunda temporada tinha a difícil tarefa de adaptar a história do polêmico The Last of Us Part II e, de alguma forma, conseguiu entregar uma versão genérica e confusa do material original. Isso porque o roteiro dá foco ou acelera nos momentos errados, se apoia excessivamente em conveniências e falha na construção dos personagens, principalmente com a Ellie (Bella Ramsey).

Pôster de divulgação de The Last of Us | Crítica 2ª temporada faz adaptação medíocre da história de The Last of Us

Nesta temporada, a protagonista está em uma jornada de vingança e tentando lidar com o luto, mas vemos que em boa parte do tempo Ellie não está realmente comprometida com sua vingança. No momento em que ela está livre para sair da comunidade de Jackson, Ellie é orientada a ouvir a opinião das pessoas e, por algum motivo, segue dependendo dos outros ao longo da temporada como se fosse uma coadjuvante.

Ellie não só parece depender demais de Dina (Isabela Merced) e Jesse (Young Mazino), mas também é inconsistente como personagem. No jogo, Ellie não é um monstro que não se importa com ninguém, mas ela tende a escolher vingança em detrimento de seus amigos. Já na série, a protagonista parece estar aproveitando uma lua de mel de altos riscos com sua nova namorada grávida, voltando à jornada de vingança nos poucos momento que o roteiro lhe permite.

A maneira que os episódios são estruturados também prejudicam a progressão da história. Metade dos capítulos servem apenas para introduzir plots que só serão explorados nos episódios seguintes, assim dando a impressão de que são vazios em conteúdo. Já os episódios que progridem a história trazem momentos impactantes e emocionantes, mas esses parecem que foram suavizados pela direção, talvez com objetivo de evitar “traumatizar” os espectadores.

Personagem de Bella Ramsey sofre de sérias inconsistências | Crítica 2ª temporada faz adaptação medíocre da história de The Last of Us

Por exemplo, a série levou seu tempo para introduzir a personagem da Abby (Kaitlyn Dever) e mostrar a vida de Joel (Pedro Pascal) e Ellie em Jackson. Entretanto, quando chega a cena da morte do Joel, a cena não é tão brutal ou impactante quanto no jogo. Sim, ainda é triste ver o Joel ser espancado e morto, mas a direção deixou a desejar.

Pouco aproveitamento

Quando falamos em adaptações de uma mídia para a outra, mudanças são necessárias (eis o porquê do nome “adaptação”). Na primeira temporada, as divergências do material original são óbvias e, muitas vezes, apropriadas para o formato de série. Aqui, as mudanças foram mal trabalhadas pelos roteiristas, além de serem pouco convincentes.

Abby, a nova personagem da série, foi bem apresentada no início da nova temporada, revelando suas motivações logo de cara. Ao final do segundo episódio, a personagem verbaliza sem qualquer razão suas motivações para Joel e, depois disso, desaparece pelo resto da história. Se tratando de uma série, o showrunner e roteiristas poderiam ter inserido a jornada de Abby ao longo da temporada para criar um espelhamento (muito necessário) com Ellie, o que nunca acontece.

Série perde oportunidades de explorar momentos para seguir a estrutura narrativa do jogo | Crítica 2ª temporada faz adaptação medíocre da história de The Last of Us

Para compensar, há uma tentativa por parte dos roteiristas de comparar Ellie com a principal figura vilanesca da série, Isaac (Jeffrey Wright). O cruel líder do grupo WLF deixa evidente como suas boas intenções de “libertar” Seattle não apagam a violência e dor que propagou. No entanto, essa comparação entre Ellie e Isaac se torna frívola à medida que Ellie parece estar às cegas e suas ações dão a impressão de acaso.

Outro aspecto inquietante é que, ao mudar as motivações dos personagens Jesse e Tommy (Gabriel Luna), a presença dessa dupla no final da temporada parece ser irrelevante. Jesse é reduzido a uma conveniência de roteiro, algo evidente no quinto episódio, enquanto Tommy está presente apenas para se ater ao material original.

Cenas são reproduzidas fielmente só para agradar os fãs | Crítica 2ª temporada faz adaptação medíocre da história de The Last of Us

Assim sendo, as adaptações realizadas na segunda temporada mais pareceram uma nota de rodapé, se mostrando pouco corajosas e inventivas. Enquanto à fidelidade, esta foi mantida nos mínimos detalhes, dando a impressão que os episódios eram recortes da gameplay do jogo.

Emoção à flor da pele

Apesar de péssimas escolhas narrativas e de direção, os atores em nenhum momento deixam a desejar em suas performances. Tanto Pedro Pascal quanto Bella Ramsey dominam a cena toda vez que estão em tela, envolvendo facilmente o espectador nos conflitos dos personagens. Toda e qualquer crítica à Bella Ramsey são infundadas por não refletirem o quão talentosa e dedicada é a atriz.

Abby é bem apresentada logo no 1º episódio | Crítica 2ª temporada faz adaptação medíocre da história de The Last of Us

Isabela Merced e Kaitlyn Dever também merecem destaque nesta temporada. Merced encanta o espectador com sua alegria contagiante, brincadeiras e apreço por Joel e Ellie, mas ao mesmo tempo demonstra bastante seriedade e determinação quando é necessário.

Já Dever traz, em todo momento, determinação e sede de vingança no olhar com um misto de luto e ódio. Em apenas poucas cenas com a personagem, é visível como o sofrimento a acompanha em cada ação que toma, e a atriz transmite isso com excelência para o espectador.

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Não só as atuações, mas a trilha sonora também transmite a melancolia presente no mundo de The Last of Us. As referências musicais de algumas das bandas mais famosas dos anos 1990 e 2000 misturadas com a trilha original composta por Gustavo Santaolalla faz com que mergulhemos no estado emocional dos personagens, especialmente na bela cena com “Take on Me” performada por Bella Ramsey.

Futuro tortuoso

A nova temporada de The Last of Us foi, definitivamente, aquém da temporada anterior e do jogo. Apesar de belas atuações, trilha sonora e fotografia, os roteiros rasos e confusos tornaram a experiência de acompanhar esta história em algo desgastante e até mesmo irritante.

Com isso, a vindoura terceira temporada já tem a difícil tarefa de superar esta e cativar mais uma vez os fãs com uma história realmente envolvente, dramática e tensa. Não só isso, mas os roteiristas terão que dobrar seus esforços para fazer o público amar e torcer pela Abby, pois esta já foi declarada a nova protagonista do seriado.

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