Talvez não exista nenhum jogo tão polêmico quanto The Last of Us Part II, pois este conseguiu a façanha de dividir a opinião de praticamente toda a comunidade gamer em 2020 devido às ousadas decisões narrativas. Mas a realidade é que, sem tal ousadia, não teríamos presenciado uma das maiores obras de arte do mundo dos videogames.

A história tomou rumos devastadores e belos, as atuações foram de partir o coração de tão extraordinárias (tanto em inglês quanto em português), a direção de arte nos apresentou um mundo mais violento, a trilha sonora ficou ainda mais emocional e a gameplay evoluiu exponencialmente. Tudo isso culminou em uma obra sem igual.

A marca deixada por The Last of Us Part II é inegável, mudando o mundo dos videogames para sempre e promovendo até hoje discussões acaloradas. E é por conta de todo esse fervor, paixão e ousadia que The Last of Us Part II está ganhando uma review especial de cinco anos!

Uma história corajosa

Não há meio termo em relação à história de The Last of Us Part II: têm aqueles que odeiam e aqueles que amam. É óbvio que nem todos os jogadores iriam gostar de ver Joel, o protagonista do primeiro jogo, ser morto e depois ser obrigado a jogar como sua algoz, mas talvez não houvesse oportunidade mais perfeita do que essa para acompanharmos múltiplas perspectivas sobre a mesma história.

Para Abby, Joel foi o monstro que matou seu pai e todos os Vaga-lumes e, com isso, ela se tornou um monstro ainda maior para executar sua vingança. E foi esse “monstro” que Ellie viu, o que a levou a se desprender de todos que amava para buscar vingança. Mas, apesar da repetição de ciclos, o jogo nos mostra a duras penas o problema de reproduzir incessantemente atos de violência.

Apresentar duas perspectivas para a história foi uma decisão ousada | Review The Last of Us Part II se mantém como obra-prima

Ellie trilha um caminho de autodestruição e violência ao longo do jogo e acaba completamente sozinha, e acompanhar isso fica gradativamente mais angustiante para nós que a vimos como uma jovem inocente. Já a Abby se encontra sozinha desde o começo do jogo e reencontra significado ao salvar os irmãos Lev e Yara, o que inicia uma linda redenção pessoal para a personagem (mesmo que algumas pessoas descordem).

É evidente como Ellie e Abby são reflexos uma da outra e estão intrinsecamente ligadas pelo ciclo de violência, mas se distinguem em suas trajetórias após a morte de Joel. Ver e jogar tudo isso é, com certeza, emocionalmente desafiador e visceral, mas a marca deixada pela história em nós jogadores é algo único.

Além disso, The Last of Us Part II abre espaço para abordar outros temas relevantes e sensíveis: paternidade, tribalismo, família, saúde mental e preconceitos. Por exemplo, é agonizante ver o estado mental de Ellie se deteriorando conforme vai se tornando a vilã da história, enquanto que é revigorante ver Abby se desfazendo de seus preconceitos e se tornando mais amável com Lev, Yara e Owen. E ainda, o jogo não esconde como a relação entre Ellie e Joel era imperfeita e complicada, mas também linda e cheia de ternura.

The Last of Us Part II trabalha muito bem a dualidade entre as protagonistas | Review The Last of Us Part II se mantém como obra-prima

É focando nas nuances e complexidades humanas que o jogo brilha, assim trazendo uma narrativa única e ainda mais sensível que seu antecessor. E não é uma tarefa fácil se aprofundar na psique de personagens em conflito, muito menos agradável, mas o esmero de Neil Druckmann e Halley Gross para essa história e personagens é inigualável.

O ápice da polêmica

No momento em que The Last of Us Part II foi anunciado, muitos fãs já tinham entendido que Joel morreria, mas não sabiam como isso seria feito. Então quando os vazamentos sobre a história ocorreram, muitos jogadores inundaram a internet com comentários preconceituosos e hostis pelo fato de Joel ser morto por uma mulher musculosa.

E não para por aí, vários internautas enviaram mensagens ameaçando a vida e a família de Neil Druckmann, Laura Bailey e outros desenvolvedores da Naughty Dog. Mesmo sem números para me basear, posso dizer com tranquilidade que a comunidade de The Last of Us se tornou uma das mais tóxicas da internet e, infelizmente, sempre carregará tal fama dentro de todo e qualquer fórum de discussão.

Abby abandona seus preconceitos quando conhece Lev, um menino trans fugitivo de uma seita religiosa | Review The Last of Us Part II se mantém como obra-prima

Apesar de tanto ódio, The Last of Us Part II foi aclamado pela crítica especializada por sua história, atuações, inovações de gameplay e melhorias técnicas, tornando-se um dos jogos mais premiados da história dos videogames ao conquistar 340 prêmios.

Emoções à flor da pele

A música sempre foi importante para The Last of Us, isso é fato. A trilha sonora composta por Gustavo Santaolalla no primeiro jogo pegou muita gente de surpresa devido ao alto nível de qualidade e impacto emocional. Na sequência é perceptível o carinho e dedicação de Santaolalla para criar uma trilha sonora ainda mais sombria, tensa e emocional, superando qualquer expectativa que se tinha.

Além de Santaolalla, o compositor Mac Quayle foi chamado pela Naughty Dog para produzir trilhas adicionais para os embates. Então, o jogo que já era intenso cria uma atmosfera opressora durante os confrontos por conta do trabalho excepcional de Quayle.

O cover de Ellie de “Take On Me” marcou e emocionou muitos jogadores | Review The Last of Us Part II se mantém como obra-prima

No entanto, os grandes destaques vão para as apresentações musicais de Joel e Ellie. Em uma cena linda e reconfortante, Ellie canta “Take On Me”, da banda a-ha, para afirmar seu amor por Dina e, bem no início do jogo, temos Joel cantando “Future Days”, da banda Pearl Jam, para Ellie.

“Future Days” tem um grande peso para a história, pois esta representa o amor que Joel e Ellie sentem um pelo outro e como a perda desse amor destruiria aquele que sobreviveu. Não é atoa que essa música é tocada algumas vezes durante o o jogo.

Atuações de uma vida

Falando em emoções, todos os atores de The Last of Us Part II se entregam por completo aos seus personagens. É perceptível como Ashley Johnson, Troy Baker e Laura Bailey dão tudo de si em cada uma das cenas que participam, principalmente na cena da morte de Joel e nos embates entre Ellie e Abby.

The Last of Us Part II não poupa os jogadores de momentos intensos | Review The Last of Us Part II se mantém como obra-prima

Não só os protagonistas dão uma aula de atuação, mas o elenco de apoio nunca deixa a desejar. Shannon Woodward como Dina, Jeffrey Pierce como Tommy, Ian Alexander como Lev, Victoria Grace como Yara, Stephen Chang como Jesse, Patrick Fugit como Owen e outros atores entendem as complexidades e nuances de seus personagens, nos entregando performances verdadeiras e poderosas.

O elenco brasileiro de The Last of Us Part II também merece um destaque especial. Luiza Caspary, Carol Valença e Luiz Carlos Persy encarnam os protagonistas com perfeição, e o mesmo pode-se dizer sobre o restante do elenco. Cada performance é singular e poderosa, o que cria um forte envolvimento com o público.

Mecânicas e visuais

Mesmo depois de cinco anos, a sequência de The Last of Us continua sendo uma das obras mais lindas visualmente. Os cenários são estonteantes e, em vários casos, intimidantes. Isso porque os locais por onde as protagonistas passam apresentam histórias próprias, muitas das quais terminaram em tragédia e/ou foram tomadas pela natureza.

Os personagens e infectados também receberam bastante atenção dos desenvolvedores. As texturas das roupas, a pele, os fios de cabelo, os olhos, o fungo nos infectados e o detalhe da água nas roupas dos personagens são fantásticos de se olhar, contribuindo com o visual realista do jogo.

Trecho da gameplay de revelação de The Last of Us Part II | Review The Last of Us Part II se mantém como obra-prima

Além dos visuais, as mecânicas de jogo foram refinadas e melhoradas. Enquanto no primeiro jogo a movimentação de Joel era mais limitada, aqui movimentar Ellie e Abby traz muito mais leveza e agilidade à gameplay. Poder desviar durante o combate torna a experiência muito mais fluida, enquanto que se rastejar abre um novo leque de oportunidades em momentos de furtividade.

Os equipamentos também passaram por melhorias consideráveis, agora tendo a possibilidade de fabricar silenciadores e minas de proximidade para se manter furtivo. As armas também passam a sensação de que ficaram mais poderosas neste jogo, tornando os combates bem mais prazerosos.

Legado emocional

Apesar de todas as polêmicas, The Last of Us Part II continua sendo uma das maiores obras-primas de todos os tempos, porque não tem medo de colocar personagens queridos em caminhos moralmente questionáveis ou de discutir temáticas sensíveis, como tribalismo e saúde mental.

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Não só isso, mas o jogo coloca em pauta até onde alguém iria por amor e por ódio. Joel mataria qualquer um que tentasse machucar Ellie, assim como Abby faria o mesmo para defender Lev. Por outro lado, Ellie sacrificaria tudo que ama para completar sua vingança, e ela sofre por isso.

Em síntese, não há como amar The Last of Us Part II sem entender que ele traz muitas coisas feias consigo. Mas, ao digerirmos tais feiuras, é possível enxergas verdades amargas e necessárias sobre a nossa própria realidade.

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