Após o grande sucesso de Ainda Estou Aqui em 2024, as expectativas do público brasileiro por O Agente Secreto estavam nas alturas, e não é à toa! No Festival de Cannes de 2025, Wagner Moura ganhou o prêmio de melhor ator e Kleber Mendonça Filho ganhou o de melhor diretor por este filme. Não só isso, mas também representará o Brasil no Oscar em 2026, como anunciado pela Academia Brasileira de Cinema.
A união da visão do diretor Kleber Mendonça Filho, a trilha sonora composta por Mateus Alves e Tomaz Alves Souza e as atuações de todo o elenco, além de outros fatores, entregam uma obra intimista envolvente e angustiante, condizente com os terrores do período da ditadura militar brasileira.
Um “espião” na ditadura
Apesar do filme se chamar “O Agente Secreto”, o personagem de Wagner Moura – Armando/Marcelo – não é um espião de maneira alguma. No entanto, para sobreviver em um país com forte e excessiva perseguição política, Armando/Marcelo precisa agir como um agente secreto para desviar a atenção dos militares.

Isso se traduz ao longo do filme em uma performance repleta de trejeitos cautelosos, mudanças de comportamento, raiva reprimida e medo constante. É perceptível como Armando/Marcelo toma cuidado em se abrir com certas pessoas e apenas em momentos em que está rodeado de pessoas confiáveis que ele realmente expressa seu desejo de liberdade.
Mas Wagner Moura realmente brilha quando deve se expressar na sutileza, quando precisa esconder suas reais emoções para evitar ser detectado pelos agentes do governo. São em cenas como essa que o ator nos prende em sua jornada e nos instiga a continuar ao seu lado.
Além do protagonista, outra personagem que cativa quase que imediatamente é a Dona Sebastiana, interpretada pela atriz Tânia Maria. Essa senhora expressa muita simpatia e carinho para com todos a sua volta, mas logo vemos que ela guarda muita tristeza, pesar e um espírito revolucionário fervoroso. Sem pessoas como ela, muitas pessoas não teriam sobrevivido a tantos governos opressores.
Um mundo opressor
Embora os atores sejam o foco, Recife é uma personagem essencial, sendo um cenário belo e amedrontador ao mesmo tempo. As ruas e certos ambientes se mostram bonitos – às vezes aconchegantes – e com bastante vida, mas uma sensação de inquietude paira no ar por não sabermos quem pode estar ouvindo ou vendo (e os quadros do então presidente espelhados pelo cenário reforçam essa ideia).

Não só os cenários, mas os paralelos constantes feitos com a ameaça dos tubarões – os quais são motivo de alerta em muitas praias de Recife – enfatizam o medo que paira sobre a população. E, assim como os tubarões, o medo provocado pelos soldados e subordinados de coronéis da região é justificado: todos que se tornam alvos sofrem são brutalmente assassinados.
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Inclusive, todos os personagens estão bastante cientes de tal brutalidade, mas agentes do governo buscam desviar o foco para a celebração do Carnaval e os jornais, controlados pelo órgão de censura, propagam histórias de folclore no lugar de notícias, tudo para criar uma falsa sensação de normalidade.
Desenterrando segredos
Semelhante a Ainda Estou Aqui, Kleber Mendonça Filho busca trazer à tona a realidade opressiva e violenta da ditadura militar brasileira ao dar voz aos refugiados e perseguidos políticos da época. Mesmo que não conte uma história clássica de espionagem, O Agente Secreto evidencia sem medo a dura realidade que muitos brasileiros vivenciaram.

Em meio a forte onda conservadora nos últimos dez anos, O Agente Secreto reforça o porquê o Brasil não deve repetir, muito menos esquecer, os crimes e a violência que marcaram o período da ditadura militar. Não só isso, mas o país deve fazer justiça a todos aqueles que sofreram e foram perseguidos injustamente.






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