Desde o lançamento de Toy Story 4, levantou-se uma pergunta importante: para onde a franquia poderia ir? Os brinquedos mais famosos da Pixar já passaram por aventuras intensas e enfrentaram dilemas existenciais junto a obstáculos quase impossíveis, mas em Toy Story 5 o “inimigo” se infiltrou silenciosamente na casa das pessoas e realmente roubou a atenção das crianças.
Logo no início do filme, fica evidente que tal reviravolta não era esperada por ninguém, muito menos para Jessie, Buzz, Woody e companhia. O espelhamento entre os protagonistas da franquia e os adultos que cresceram com esses filmes se torna claro nos conflitos sobre como as tecnologias deveriam ditar (ou não) os próximos passos de cada indivíduo.
Ao mesmo tempo, a trama reforça a importância do brincar e de usufruir da imaginação em uma era marcada por tecnologias e dispositivos que podem fazer tudo por nós, até mesmo pensar.
Brinquedos vs. tecnologia
Em 1995, ninguém imaginava que a tecnologia tomaria conta de cada aspecto de nossas vidas, mas o inimaginável aconteceu. Nem mesmo John Lasseter, diretor do filme original, ou o time de produção tinha noção disso. Assim como os millenials e parte da geração Z, os brinquedos em Toy Story 5 não entendem exatamente como lidar com a chegada da Lilypad, o tablet infantil, na vida de sua criança, a Bonnie, e iniciam o conflito mais complicado de suas vidas.
Jessie, agora xerife dos brinquedos, é a primeira a confrontar o novo tablet de Bonnie com o objetivo de demarcar o território, mas o tiro sai pela culatra: Lilypad já sabe de todas as necessidades da menina e mostra ter todas as ferramentas para “arrumar” a vida dela. Assim, é instaurado um clima de medo e tensão entre os brinquedos, principalmente em Jessie.

Com isso, sentimentos há muito tempo adormecidos despertam, levando Jessie a tomar decisões desesperadas para ganhar a atenção de Bonnie novamente. No entanto, isso a faz questionar se suas ações são movidas por altruísmo ou por puro egoísmo.
Assim, Jessie é obrigada a enfrentar seus medos da maneira mais crua e direta possível, o que resulta em um dos arcos emocionais mais poderosos da franquia. Ao mesmo tempo, a protagonista também precisa encarar os aspectos da inevitabilidade do tempo para enfrentar este novo obstáculo tecnológico.
O resultado disso é uma das jornadas mais bonitas e emocionais de toda a franquia, ficando atrás apenas de Toy Story 3, e ainda por cima mostra todo o potencial de liderança e protagonismo de Jessie desde sua estreia em Toy Story 2, há 27 anos.
Três histórias, um filme
É comum existir uma ou mais subtramas dentro de um filme, os quais geralmente se entrelaçam com a história principal e são resolvidas ao final do filme. Em Toy Story 5, por outro lado, tais subtramas parecem desconexas do restante da história por boa parte do tempo.
Os protagonistas originais da franquia, Buzz e Woody, se reencontram para acalmar os nervos dos outros brinquedos enquanto Jessie está fora e acabam iniciando um conflito cômico, mas sem sentido, por liderança. Após uma intensa rivalidade e 30 anos de amizade, a disputa entre os personagens aqui parece forçada e cria a impressão de estar ali apenas por motivos de nostalgia.

Apesar da briga entre os dois, os personagens estão determinados a ajudar Jessie em sua jornada e se juntam a ela eventualmente, o que justifica, em partes, a existência dessa subtrama. No entanto, o mesmo não pode ser dito da subtrama da legião de Buzz Lightyears, que mais atrapalha do que ajuda no desenvolvimento da trama principal.
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Isso porque, desde o início, o objetivo desses Buzz Lightyears é claro: eles devem chegar ao Comando Estelar, e o filme interrompe frequentemente a história de Jessie e seus amigos em momentos cruciais para mostrar as aventuras da legião de Lightyears na busca pelo Comando Estelar.
Relevância em tempos modernos
Um tema constante na franquia sempre foi o de relevância. Há 30 anos, Woody foi obrigado a questionar sua relevância com a chegada de Buzz, o brinquedo da moda; em 2010, os brinquedos tiveram que lutar pelo seu lugar na vida de novas crianças quando Andy cresceu; e em 2026, a relevância dos brinquedos é questionada em meio a uma realidade dominada por aparelhos digitais.

O trauma de Jessie de ser esquecida e o conflito dela com Lilypad reflete de maneira exemplar o conflito entre “os bons e velhos tempos” e era digital, fazendo o próprio espectador questionar qual a melhor atitude a ser tomada quanto à exposição da nova geração a tablets, celulares e computadores.
Infelizmente, a resposta não é simples e muito menos definitiva, pois nenhum de nós realmente sabe qual seria a resposta “correta” para tal questão. Jessie, Buzz, Woody e os outros brinquedos continuarão na luta pela relevância em meio à tecnologia, mas estarão sempre cientes de que poderão contar uns com os outros para se manterem na luta pela relevância na vida das crianças.





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