É inegável que o consumo digital, seja de filmes, livros ou jogos, é muito mais conveniente para a maioria das pessoas nos dias de hoje, mas isso não deveria significar a extinção completa da mídia física. No entanto, a Sony está firme em sua decisão de encerrar a produção de jogos em mídia física.

E pode até parecer que só agora decidi tocar nesse assunto tão delicado, mas não é verdade. Há pouco mais de um mês, eu e o Edu Garcia discutimos no Spotify do POP nas Ideia o quão prejudicial essa decisão da Sony é para todos os jogadores de PlayStation.

O mais impressionante é que, desde 1º de julho, o público gamer vem protestando incessantemente contra a decisão da empresa nas redes sociais e nos vídeos do canal da PlayStation, na maioria dos casos utilizando o emoji de CD ou a frase “no disc, no buy” (“sem disco, sem compra”, em tradução livre) na sessão de comentários.

Mesmo sabendo da revolta dos fãs, os planos da Sony não mudaram. A CFO da empresa, Lin Tao, argumentou que companhias das mais diversas áreas estão migrando para o digital e, por isso, faria sentido a Sony seguir o mesmo rumo. “Existem várias razões pelas quais tomamos essa decisão, sendo a principal delas o avanço da digitalização de conteúdos como um todo; esse é o grande fator”, declarou a executiva.

“E, em relação a essa decisão [de encerrar a produção de discos], recebemos várias opiniões e as pessoas têm visões fortes, e entendemos que a comunidade apresentou essas visões para nós. Os jogos são amados por muitas pessoas, é uma forma de entretenimento amada por elas e, em muitos casos, está conectada a lembranças afetuosas. E, portanto, entendemos essas emoções. Queremos levar isso em consideração. E, no futuro ecossistema digital, como engajamos os gamers é algo que gostaríamos de continuar a explorar”, concluiu Tao.

Embora a executiva esteja certa que os jogos em mídia física despertem um sentimento de nostalgia nos jogadores, e eu me incluo nisso, apoiar a continuidade da mídia física não significa retroceder, mas sim preservar boa parte dos jogos já lançados. Entretanto, as grandes empresas têm mostrado cada vez mais o quanto não se importam com os próprios produtos.

Lutar pela mídia física é lutar pela preservação de jogos

Como comentei antes, discutimos a questão da preservação dos jogos no podcast. Falamos sobre o desligamento dos servidores de The Crew pela Ubisoft em 2024, o que impossibilitou os fãs de jogarem, e sobre a remoção do jogo brasileiro Horizon Chase Turbo de todas as lojas digitais. Ambos os exemplos são de jogos muito bons que se perderam para sempre, mas os poucos que compraram o disco de Horizon Chase ainda conseguem jogar sem impedimentos.

Isso apenas prova que, sem a mídia física, a preservação de jogos está em risco. Essa é uma batalha que vale a pena lutar! A digitalização total coloca os jogos, isso sem contar filmes e livros, à mercê de grandes empresas que podem deletar qualquer obra quando bem entenderem, e o público não poderá fazer nada.

Compramos ou só alugamos?

Se a Sony tivesse parado no anúncio do encerramento dos discos, eu diria tranquilamente que era só continuar protestando que eles iriam ceder, eventualmente. No entanto, logo depois do anúncio, a empresa iniciou a reestruturação de sua fábrica de produção de CDs, na Áustria, para a produção de microlentes ópticas e, em agosto, argumentou que “ninguém é dono de jogos digitais”.

Créditos: Capcom

Em resposta a um processo na Califórnia, nos EUA, a Sony afirmou que não é possível um usuário comprar um jogo na loja digital de PlayStation, pois isso impediria que outro pudesse adquirir tal jogo.

“Na era digital, não é plausível alegar que os consumidores ​​acreditavam estar obtendo a “propriedade” de um jogo digital. Se esse fosse o caso, o autor Edward Heycock não teria conseguido obter o jogo Resident Evil Requiem em 25 de fevereiro de 2026 por US$ 69,99 na PlayStation Store, depois que o autor Jason Mendoza o obteve em 14 de fevereiro de 2026, porque o Sr. Mendoza, e não a Sony, seria o proprietário do jogo naquela ocasião.”

A questão é que essa resposta não faz o menor sentido, porque todo jogador consegue acesso a uma cópia do jogo, seja ele digital ou físico. Ninguém está dividindo o acesso à mesma cópia e dizer que um usuário impossibilitaria o resto mundo de jogar algo por ter comprado antes na loja digital é um completo absurdo!

Créditos: Sony Interactive Entertainment / Naughty Dog

Isso tudo é apenas uma desculpa (bem esfarrapada) da Sony para justificar seu monopólio digital de 2028 em diante e forçar seus jogadores a se submeter aos preços abusivos da companhia. E o pior de tudo é pagar o valor cheio de um jogo sabendo que você está apenas “alugando” ele.

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Considerando tudo isso, não consigo imaginar um futuro positivo para os jogadores de PlayStation. Cyberpunk 2077 já nos mostrou muito bem o quão horrível é ser forçado a se submeter às regras e aos prazeres de uma megacorporação, ainda mais quando nosso objetivo é apenas nos divertir. Eu gostaria muito que a empresa enxergasse os erros que estão cometendo e revertesse a situação, mas o futuro parece sombrio.

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