Veja, durante muito tempo eu tive uma opinião muito bem definida sobre a trilogia Mass Effect: todos os três jogos eram espetaculares, mas o primeiro era claramente o mais “fraco”. Não ruim, longe disso. Mass Effect sempre foi um jogo que gostei muito, contudo, quando colocado ao lado de Mass Effect 2 e Mass Effect 3, eu não pensava duas vezes antes de colocá-lo na terceira posição.

O problema é que, com o passar do tempo e a cada vez que volto para esse primeiro título, essa certeza vai desaparecendo um pouco. Curiosamente, hoje eu já não sei mais se consigo apontar com tanta segurança qual é o melhor Mass Effect, porque aquilo que antes eu enxergava como um ótimo ponto de partida para algo maior, atualmente me parece tão redondo, brilhante e especial quanto suas continuações.

E creio que boa parte disso esteja na facilidade quase absurda que a BioWare teve para apresentar um universo completamente novo e fazer com que você rapidamente se importe com ele.

Uma galáxia inteira para apresentar

Mass Effect tinha uma tarefa que, olhando em retrospecto, parece até ingrata. Não bastava apresentar Shepard e contar uma boa história.

O jogo precisava estabelecer espécies, conflitos, organizações, política, tecnologia, religiões, acontecimentos históricos e toda uma estrutura social de uma galáxia que simplesmente não existia antes daquele momento. E faz tudo isso sem ser excessivamente expositivo ou profundamente tedioso. 

É um trabalho verdadeiramente hercúleo de construção de lore, porque rapidamente você entende aquele universo, seus principais conflitos e, mais importante, começa a querer saber mais. Existe uma quantidade quase ridícula de informação disponível para quem quiser se aprofundar, mas Mass Effect nunca torna isso essencial para você usufruir do que está na sua tela.

Você começa naturalmente a se interessar pelas espécies, pelos conflitos entre elas, por aquilo que aconteceu antes da chegada da humanidade naquele cenário e, consequentemente, pelo motivo de certos personagens enxergarem o universo da maneira que enxergam.

O coração pulsante desse universo

Não adianta criar uma quantidade absurda de lore se ninguém dentro daquele universo for interessante. Felizmente, a BioWare parece ter entendido isso muito bem.

O elenco de Mass Effect é simplesmente excelente. Existe um carisma absurdo naquele grupo e boa parte do apego que temos pela trilogia começa justamente aqui. Tali, Garrus e Liara não me deixam mentir, todos já demonstram muito facilmente aquilo que posteriormente faria deles alguns dos personagens mais queridos da franquia.

Contudo, se existe alguém que particularmente rouba completamente a cena nesse primeiro jogo para mim, é Wrex. Nosso querido Krogan rabugento funciona seja por seus comentários, sua personalidade ou pelo fato de que o próprio passado dele ajuda a complementar toda essa construção de universo citada anteriormente.

Wrex não serve apenas para ser um companheiro engraçado ou o grandalhão do grupo. Conversar com ele também é uma forma de entender melhor os Krogan, o Genophage e, consequentemente, parte importante da própria história daquela galáxia. É uma integração entre personagem e lore que Mass Effect faz muito bem durante praticamente toda a aventura.

E isso vale para quase todo o grupo. Você quer conversar com essas pessoas. Quer entender suas histórias, saber o que pensam sobre aquilo que está acontecendo e descobrir se existe alguma nova linha de diálogo disponível após determinada missão.

Quando um RPG consegue fazer você voluntariamente interromper sua jornada só para andar pela Normandy e conversar com seus companheiros, alguma coisa deu muito certo. E essa vontade de conhecer melhor aquele universo acaba sendo essencial para que a própria trama tenha o peso que possui.

Uma verdadeira aula de Storytelling

A história de Mass Effect é um espetáculo.

Ela começa relativamente contida, apresentando Shepard, Saren e os principais conflitos daquele universo, mas vai aumentando sua escala conforme entendemos a dimensão daquilo que realmente está acontecendo. O jogo consegue crescer sem parecer que está simplesmente inventando uma ameaça maior a cada nova missão.

E assim, não quero transformar esse texto em uma coleção de spoilers, mesmo que estejamos falando de um jogo lançado há quase duas décadas, mas a revelação envolvendo Sovereign continua sendo, na minha visão, um dos melhores plot twists da história dos games.

Aquele diálogo, você que jogou sabe do que estou falando, ficaram gravados na minha cabeça desde a primeira vez que joguei Mass Effect.

A partir dali, a forma como você entende a história muda completamente. Aquilo que parecia ser uma trama sobre perseguir Saren passa a ser algo muito maior, e a BioWare consegue fazer essa transição de escala de uma maneira que considero brilhante.

Você definitivamente não vai lembrar de Mass Effect pelas sessões de tiroteio

O combate não é ruim. Funciona, diverte e cumpre perfeitamente sua função, mas também não é nem de longe a primeira coisa que vem à minha cabeça quando penso em Mass Effect. Não existe aqui aquela sensação de que você está diante de um sistema tão bom que passaria dezenas de horas jogando apenas por ele.

E está tudo bem.

O combate funciona na medida correta para carregar aquilo que o jogo realmente quer fazer, enquanto os elementos de RPG acabam sendo muito mais interessantes. Particularmente, gosto bastante da quantidade de customização disponível, seja em armas, armaduras, equipamentos ou na própria construção dos personagens.

Inclusive, talvez eu compre uma pequena briga aqui: considero Mass Effect 2 um retrocesso nesse sentido.

Eu entendo perfeitamente o motivo pelo qual a BioWare simplificou uma série de sistemas na continuação, deixando tudo mais direto e acessível, mas sempre achei que ela passou um pouco do ponto. O primeiro Mass Effect possui uma sensação muito maior de liberdade, entende?

Contudo, existe outra parte da gameplay que envelheceu de uma maneira bem menos agradável.

O problema dos Uncharted Worlds

Para não dizer que estou apenas babando o ovo do jogo durante todo este texto, a exploração dos planetas é tenebrosa.

A ideia em si é excelente. Você pousa em um mundo desconhecido com o Mako, começa a explorar sua superfície e procura recursos, pontos de interesse, estruturas abandonadas e missões. Em teoria, existe toda uma fantasia de exploração espacial que combina perfeitamente com Mass Effect.

Na prática, esses planetas são enormes, vazios e não possuem quase nada de minimamente interessante para encontrar e o Mako definitivamente não ajuda

Eu sei que a Legendary Edition melhorou seus controles, mas isso não muda o fato de que continua chato pra burro dirigir aquilo por determinados terrenos. Existem momentos onde explorar um planeta parece menos uma aventura espacial e mais uma batalha pessoal entre você, Shepard, o controle, o Mako e o terreno.

As Side Quests conseguem salvar um pouco essa experiência, principalmente porque várias possuem boas histórias, personagens interessantes e textos que fazem valer a pena ir atrás delas. O problema é que, mecanicamente, até essas missões começam a demonstrar bastante repetição.

Você percebe estruturas extremamente parecidas, locais reaproveitados e situações que seguem basicamente o mesmo formato. É um contraste curioso, porque narrativamente aquela missão pode estar contando algo genuinamente interessante, mas visualmente você sente que entrou naquele mesmo prédio umas oito vezes.

Como um vinho

Visualmente falando, Mass Effect envelheceu bem. Óbvio, estamos falando de um RPG e eu raramente espero que um jogo desse gênero seja o suprassumo da tecnologia gráfica de sua geração, principalmente quando existe uma quantidade tão grande de personagens, diálogos, cenários e sistemas acontecendo ao mesmo tempo.

Levando isso em consideração, Mass Effect é sim bonito, mas creio que a direção de arte seja a grande responsável por fazer o jogo continuar funcionando visualmente agradável tantos anos depois.

Afinal, o título possui uma identidade visual estupenda. A Citadel, a Normandy, as espécies, as armaduras, as interfaces possuem uma personalidade muito própria.

Você olha para uma imagem e sabe que aquilo é Mass Effect.

Para mim, isso sempre vai valer muito mais do que qualquer tentativa de alcançar um realismo que inevitavelmente ficará datado alguns anos depois.

E eu tenho poucas dúvidas que é justamente a soma de tudo isso que faz minha opinião sobre o primeiro jogo mudar cada vez que retorno a ele.

Durante muito tempo, eu o enxerguei como aquele excelente primeiro capítulo que posteriormente seria superado por suas continuações. Hoje eu já não tenho tanta certeza disso.

Mass Effect 2 continua sendo Mass Effect 2, é um dos melhores jogos de todos os tempos de acordo com a crítica especializada. Mass Effect 3, apesar de todas as discussões que podemos ter sobre sua reta final, e outra decisões questionáveis da Bioware (sério, porque o Javik é uma DLC???) também é um jogo apaixonante. Contudo, o primeiro Mass Effect possui algo especial pela maneira como apresenta aquele universo, seus personagens e a ameaça que vai definir toda a trilogia.

É um tanto quanto inevitável se você parar para pensar. É o jogo onde você conhece a Normandy, Garrus, Tali, Liara, Wrex e todo aquela lore pela primeira vez. É onde cada nova espécie realmente é nova, cada revelação amplia sua compreensão daquela galáxia e onde o próprio jogador ainda está tentando entender qual é o tamanho daquela aventura.

Mas também seria injusto reduzir tudo apenas ao fator novidade. A verdade é: Mass Effect é bom pra cacete.

Continua sendo um título essencial para qualquer amante de ficção científica e RPGs. É o começo daquela que, para mim, ainda é a melhor saga de ficção científica das últimas duas décadas, e falo isso considerando todos meios de entretenimentos possíveis e imagináveis.

Nota: 9.0/10

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